22 de out de 2009

NEOLÍTICO AO ANDRÓIDE PARANÓIDE.

O mundo não é um redondo à toa: mais dia, menos dia, esbarramos novamente naquilo que fizemos (ou não fizemos). Não há escapatória. Lembrei disso quando fui contactado por uma empresa de currículos online.

- Depressão no trabalho.

Como qualquer ser humano do sexo masculino, sou muito barato, é verdade: bastam dois elogios em voz feminina e o ego já está vendido. Não foi diferente neste caso. E segue a entrevista.
Como uma sarna, a depressão está por todo lado: segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2020 ela passará da 4ª para a 2ª colocada entre as principais causas de incapacidade para o trabalho no mundo. No ambiente de serviço, a depressão pode se manifestar com queda da produtividade, desinteresse para aprender novas tarefas e isolamento social. Algumas pessoas podem direcionar os sintomas para um espectro de irritabilidade: muitas vezes, o famoso "pavio curto" não é um sujeito nervosinho ou estressado, mas apenas mais um deprimido.
Balela

No combate à depressão, muito tem sido dito sobre o papel das empresas como promotoras da saúde de seus funcionários. Quanta balela. Não é um papel da empresa zelar pelo bem estar do funcionário. O papel da empresa é espremer do funcionário o lucro que puder, pelo tempo que conseguir.
Existem 6 bilhões de pessoas no planeta. Alguém irá substituir você quando sua produção não compensar seu salário. É um mundo capitalista e não venha me dizer que você não sabia disso até hoje.
Quanto às previsões terroristas da OMS, não vejo dificuldade em enxergar as razões por trás da marcha avassaladora dos transtornos depressivos. Nossa espécie tem cerca de 300 mil anos. Durante séculos fomos nômades, caçadores e coletadoras. Mudávamos de residência a cada estação, vivíamos desafios diferentes a cada dia. Sempre uma nova presa, uma nova pescaria, um pedaço desconhecido do bosque para explorar e buscar novas frutas e novos caminhos para a sobrevivência.
Apenas de uns 100 séculos para cá dominamos a agricultura e abandonamos a existência nômade por excelência. Mas, de um ponto de vista proporcionalmente evolutivo, permanecemos filhos daqueles pré-neolíticos. A herança genética daquela natureza intrépida sobreviveu impregnada no núcleo de nossas células, após dezenas de milhares de gerações aventureiras.

Discrepância

É óbvio que a dissonância entre a magnitude do que poderíamos ser e a mediocridade do que aceitamos nos tornar só poderia resultar em problemas. E estes problemas surgiram na forma de um aumento dos casos de câncer, doenças auto-imunes, complicações cardiovasculares e alterações psiquiátricas de toda sorte. Criamos uma realidade que subverteu nossa natureza - e agora as promissórias estão vencendo.
Se pretendemos mudar as previsões da OMS para os transtornos depressivos, precisamos de uma revolução dos costumes, um ponto de ruptura lúcida como o que ocorreu no Renascimento, no Iluminismo e com os Baby Boomers, mais recentemente. É possível que esta revolução silenciosa já esteja em curso, patrocinada pelas idéias da Geração Y.

*Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor e palestrante. Autor de, entre outros livros, "Para Além da Juventude - Guia para uma Maturidade Saudável" (Editora Leitura). Este texto na íntegra está no Yahoo Saúde de 22/10/2009.

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